Acho interessante o discurso "não toco para os outros, toco para mim. Se os outros gostam do que eu gosto, bom, se não, paciência". Em geral, incorporo esse lema. Até porque meu gosto não é tão diferente do gosto das pessoas com quem costumo andar.
Mas eu não ando com as pessoas que transitam na estação de metrô aqui de Estocolmo. Aceito o argumento de que faço neste o lugar justo o que faria em casa, sem incomodar os vizinhos. Incomodo agora os transeuntes, mas ainda tocando para mim mesmo. O que a princípio é mais tranquilo, pois não cruzarei com eles na escada do meu prédio. Mas as minhas costas disseram o contrário.
Principalmente durante a noite tenho compreendido, dis costa (diria "Seu Buneco"), a frase de Sartre: o inferno são os outros. Depois de tocar terça passada no metrô tive três ou quatro noites mal dormidas por conta de uma dor considerável nas costas. À parte as caminhadas de mochila um tanto pesada, juro que a dor começou a melhorar significativamente quando aceitei que a parcela maior de sua causa veio da prática do projeto Tubo de ensaio. Começou aquela noite, quase que repentinamente.
Reforça meu argumento outra experiência, também com música. Era uma prova para estudar violão clássico: toquei duas ou três peças para três professores, durante pouco menos de dez minutos. Durante alguns dias meu joelho esquerdo, sobre o qual apoiei o violão, doeu como se eu tivesse jogado a partida do século.
Tudo isso pra pra justificar a música tema da próxima quarta-feira. O outro. Poema de Mário de Sá-Carneiro musicado por Adriana Calcanhotto.
O outro
Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o outro.
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o outro.
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