quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

T-Centralen - Eu quero é botar meu bloco na rua

Se no carnaval passado, dei-me o direito de almoçar na Cobal do Humaitá vestido de Sharon Stone, neste autorizei-me a levar um banquinho daqui de casa para a T-Centralen, burlando a regra do projeto de permanecer na estação Näckrosen até angariar dinheiro para comprar um assento.

É carnaval. Chance única pra enfrentar a multidão. Música tema: Eu quero é botar meu bloco na rua. Com ajuda do Felipe Moreira, a letra foi passada para o inglês, na medida do possível. A expectativa era grande. Junto com ela, o medo do grande público.

Dessa vez não tem foto. Até cogitei fazer um video. Mas quando ameacei um intervalo, depois de tocar 40 minutos ininterruptamente a mesma canção (é carnaval), violão definado por causa do frio e voz um pouco rouca, dois policiais vieram me explicar que não é permitido tocar ali. Naquele local só poderia ser exposto e vendido material impresso, disse-me um deles, apontando para as moças que entregavam ou vendiam alguma coisa ali perto. Eu disse: - Ok. Nem pediram documento. Fosse o caso explicaria que estou estudando filosofia em Estocolmo, que também sou polícia, só que metafísica. Que isso é só uma fantasia de carnaval. Mas, tudo bem. Polícia mesmo, seja ela física ou metafísica, não pode transigir com qualquer tipo de fantasia.

Pelo que entendi, não se tratava de um embargo do projeto Tudo be ensaio [test tube] como um todo, mas apenas desta edição especial de carnaval. De fato, realizada num local que atrapalhava, vagamente, a circulação de pessoas. De fato, era preciso parar para afinar o instrumento e recuperar um pouco a voz, dizia minha polícia interior. Embora conseguisse continuar por mais uma hora nas mesmas condições. Era carnaval.

Acontece que agora tenho um banquinho. Comprei esse mesmo por dez reais (barato, sei, mas, convenhamos, é usado). Agora posso circular pelas demais estações. O propósito principal do projeto nem é enfrentar multidões. Semana que vem explico porque esta é ainda a sua fase de gestação.

Saldo do dia: 54 coroas suecas. O que dá mais ou menos R$ 16,20. Destaque para o homem carregando dois violões que se desdobrou para me dar 20 coroas. Também o menino feliz da vida jogando uma moeda no case.

Repertório

Eu quero é botar meu bloco na rua (Sérgio Sampaio)
Há quem diga que eu dormi de toca
One can say that I´ve lost my touch
Que eu perdi a boca
That I´ve said to much
Que eu fugi da briga
That I´ve runned away
Que eu caí do galho
That I´m falling from the stairs
E que não vi saída
And cant´t see the way
Que morri de medo quando o pau quebrou
That I was quite afread when the time had come
Há quem diga que eu não sou de nada
One can say that I´m nothing
Que eu não sei de nada
That I know nothing
E não peço desculpas
That I cant feel sorow
Que eu não tenho culpa
That it is not my foult
Mas que eu dei bobeira
But I should had thought
Que Durango Kid quase me pegou!
That Durango Kid almost got my soul!

Eu quero é botar
(I) just wanna get out
Meu bloco na rua
And go to the streets
Gingar
Play loud
Botar pra gemer
As loud I can be
Eu por mim
By myself
Queria isso e aquilo
I want this and that
Um grilo menos disso
Maybe less of this
Um quilo mais daquilo
One more piece of that
É disso que eu preciso
That´s what I´m needing
Não é nada disso
No, it is not about this
Eu quero é todo mundo nesse carnaval
I just want everybody at this carnival


Eu quero é botar
(I) just wanna get out
Meu bloco na rua
And go to the streets
Gingar
Play loud
Botar pra gemer
As loud I can be

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Näckrosen - finding translations

Enquanto estava inerte, o projeto cresceu, qual massa de pão. Depois de escolher a música tema dessa semana e fazer uso do inglês com mais frequência, um belo dia a primeira frase da letra saiu em inglês. A segunda também. Aí foi só retocar e pensar em soluções nas partes mais complicadas. É claro que existem trechos intraduzíveis, erros de inglês e soluções arbitrárias. Mas isso é o que me deixa mais tranquilo. Sinto-me, enfim, de igual para igual com os transeuntes. Pois se o que eles me dão é uma pequena parte sua riqueza financeira sueca, "um cheiro", embora achem estão dando muito ou o suficiente - dou de volta uma pequena parte da riqueza musical brasileira, "um cheiro", também achando que é muito ou o suficiente.

O repertório e o saldo do dia. Uma foto menos embaçada que a anterior. Claro, a letra traduzida para o inglês.



15 de fevereiro - Näckrosen

1. O outro (The other)

Eu não sou eu
I´m not myself

Nem sou o outro
Nor the other

Sou qualquer coisa de intermédio
I´m something else at the border

Pilar da ponte de tédio
Wich lies in a boring order

Que vai de mim para o outro
That goes from me to the other

2. Berimbau
3. The other
4. Carinhoso
5.The other
6. Congênito
7. The other

Saldo do dia: um homem que parou para ouvir. Crianças sempre olham. E claro, 6 coroas suecas, o que dá 1,80 reais, mais ou menos.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

O inferno são os outros

Acho interessante o discurso "não toco para os outros, toco para mim. Se os outros gostam do que eu gosto, bom, se não, paciência". Em geral, incorporo esse lema. Até porque meu gosto não é tão diferente do gosto das pessoas com quem costumo andar.

Mas eu não ando com as pessoas que transitam na estação de metrô aqui de Estocolmo. Aceito o argumento de que faço neste o lugar justo o que faria em casa, sem incomodar os vizinhos. Incomodo agora os transeuntes, mas ainda tocando para mim mesmo. O que a princípio é mais tranquilo, pois não cruzarei com eles na escada do meu prédio. Mas as minhas costas disseram o contrário.

Principalmente durante a noite tenho compreendido, dis costa (diria "Seu Buneco"), a frase de Sartre: o inferno são os outros. Depois de tocar terça passada no metrô tive três ou quatro noites mal dormidas por conta de uma dor considerável nas costas. À parte as caminhadas de mochila um tanto pesada, juro que a dor começou a melhorar significativamente quando aceitei que a parcela maior de sua causa veio da prática do projeto Tubo de ensaio. Começou aquela noite, quase que repentinamente.

Reforça meu argumento outra experiência, também com música. Era uma prova para estudar violão clássico: toquei duas ou três peças para três professores, durante pouco menos de dez minutos. Durante alguns dias meu joelho esquerdo, sobre o qual apoiei o violão, doeu como se eu tivesse jogado a partida do século.

Tudo isso pra pra justificar a música tema da próxima quarta-feira. O outro. Poema de Mário de Sá-Carneiro musicado por Adriana Calcanhotto.

O outro

Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o outro.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Näckrosen - onde tudo começou

Dei início ao projeto musical idealizado há algumas semanas. Tubo de ensaio. Um pouco por conta do constrangimento de tocar em casa e perturbar a paz espiritual dos vizinhos, sejam eles de quarto ou de apartamento, um pouco para retocar minha imagem burguesa com um pouco de marginalidade artística, um pouco porque dinheiro é quase sempre bem vindo, planejo tocar toda teça-feira em alguma estação de metrô aqui de Estocolmo. A da vez foi Näckrosen, próxima aqui de casa. Também porque nela já se encontra uma espécie escultura em forma de banco, ou um banco em forma de escultura. O plano é tocar nela para angariar dinheiro e comprar um banquinho. Feito isso, saio em turnê pela cidade. Juntando dinheiro suficiente, excursionarei pela Europa.

Abaixo segue o repertório de hoje, a letra da música tema, e uma foto, tão embaçada quanto o ímpeto de continuar com o projeto. Sim, também discrimino o saldo do dia.



07 de fevereiro - Näckrosen

1. Maldição

Baudelaire, Macalé, Luiz Melodia
Quanta maldição!
O meu coração não quer dinheiro, quer poesia!

Baudelaire, Macalé, Luiz Melodia
Rimbaud - A missão
Poeta e ladrão
Escravo da paixão sem guia

Edgar Allan Poe tua mão na pia
Lava com sabão tua solidão
Tão infinita quanto o dia

Vicentinho, Van Gogh, Luiza Erundina
Voltem pro sertão
Pra plantar feijão
Tulipas, para a burguesia

Baudelaire, Macalé, Luiz Melodia
Waly Salomão, Itamar Assumpção
O resto é perfumaria

2. Carinhoso

3. Mão e luva

4. A minha alma

5. Brigitte Bardot

6. À primeira vista

7. Maldição

8. Cruising

9. Tigresa

10. Cadê teu swin_?

11. Conversa de botas batidas

Saldo: enquanto eu tocava a música "A minha alma", um homem, talvez com seus 45 anos, passou por mim, olhou e fez um sinal de positivo com a cabeça. Respondi com um sinal de positivo.